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Matéria de capa › 03/12/2018

Pés na terra. Olhos no céu

A solenidade de Cristo, Rei do Universo, marcou o encerramento do Ano Litúrgico e renovou para nós a pergunta que toda pessoa faz: para onde vai nossa vida? Para onde vai a história do mundo e da sociedade? O mundo gira às cegas, sem lógica e sem destino, sem estar orientado para um ponto de chegada? E também a vida de cada pessoa e da humanidade inteira? No mundo, estamos apenas entregues a nós mesmos e à nossa sorte?

Alguns até pensam assim, porém não é essa a visão sobre o mundo, a pessoa, a sociedade e a história que nós temos, a partir da fé cristã, conforme ensinamento da festa de Cristo, Rei do Universo. O mundo não existe por acaso, nem por conta própria, mas pelo desígnio criador e salvador de Deus, que comunica sua glória às criaturas e as quer participantes de sua plenitude. E também o ser humano não apareceu por um acaso, mas por um chamado benevolente de Deus, que quer algo de bom e grandioso para nós.

Não existimos apenas para esta breve existência no mundo, mas somos chamados a participar da glória de Deus e de sua eterna felicidade. Parece muita ousadia falar assim, contudo é bem isso que afirma a nossa fé. Quando professamos que cremos “na vida eterna”, isso não corresponde a uma afirmação de cunho intelectual sobre uma realidade distante de nós: cremos na vida eterna, à qual somos chamados nós também. É para lá que se orienta a nossa existência neste mundo.

Jesus Cristo é o Salvador enviado por Deus ao mundo, para todos, e não apenas para alguns. Ele é “Senhor” do mundo inteiro, confiado ao seu poder para que o salve de todo mal e o entregue a Deus Pai. Jesus Cristo é “a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra” (Ap 1,5). Ele, o Filho de Deus, foi enviado a este mundo para anunciar e trazer a todos o Reino de Deus, que chega com a sua pessoa. Quando Ele inicia a sua vida pública, o “reino do Maligno” é abalado e vencido pela palavra e pela ação de Jesus, que convida a todos a abandonar o “reino das trevas”, dominado pelo inimigo de Deus, e a aderir ao Reino de Deus.

Na sua prisão e condenação à morte, Jesus foi julgado pelas autoridades deste mundo. Pilatos perguntou sobre a acusação que faziam contra Jesus: “Então tu és rei?” E Jesus respondeu: “Tu o dizes, eu sou rei”. Mas Jesus também afirma: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36-37). Cristo Rei não faz concorrência com Pilatos nem com Herodes em relação aos seus domínios terrenos. Não disputa reinos na terra quem é rei sobre o universo inteiro. Diante de Pilatos, Cristo ensina que o Reino de Deus não é da mesma natureza dos reinos da terra, que também devem submeter-se ao Reino de Deus. E quem julgou Jesus devia saber que, um dia, ele mesmo haveria de prestar contas de suas decisões e ações ao Rei do céu e da terra. A vida de todos, e não apenas dos governantes, está orientada para uma meta e todos deverão apresentar-se diante de Cristo, Rei e Senhor do mundo, para a prestação de contas e o julgamento final, e para receber de Deus o prêmio pelo bem realizado ou – que Deus nos livre -, para o castigo pelo mal praticado.

Já no primeiro domingo do Advento, iniciando um novo Ano Litúrgico, a mesma temática reaparece, todavia com outro enfoque: nossa vida e nossa história, desde seu início, são animadas e orientadas pela presença do Deus fiel, que nos atrai a si mesmo e à realização de suas promessas. O começo do Ano Litúrgico nos coloca em situação semelhante a quem inicia uma viagem ou um projeto: a viagem tem um objetivo e quem a inicia tem o desejo e a esperança de chegar lá; quem inicia um projeto, tem o desejo e a esperança de concluí-lo com êxito. Assim é a vida humana neste mundo e também a história da humanidade. No início do Advento, pedimos a Deus que nos dê “o ardente desejo de possuir o reino celeste”, que é a grande meta de nosso peregrinar neste mundo. Ao mesmo tempo, porém, pedimos a Deus que nos dê a graça de ser “perseverantes nas boas obras”.

Enquanto seguimos o caminho, com os olhos fixos na meta final, devemos estar com os pés bem firmes no chão, para sermos fiéis às nossas tarefas, deveres e missões de cada dia. Somos colaboradores com Deus, para que seu Reino seja acolhido e se estabeleça já neste mundo. Somos discípulos e testemunhas do Reino de Cristo e de Deus, e isso nos compromete a cada dia com todas as realidades que nos cercam. É bem isso que também indica o lema do nosso sínodo arquidiocesano: “Deus habita esta Cidade. Somos suas testemunhas”.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 28/11/2018