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Artigos, Editorial, Notícias › 18/05/2017

Para onde vai o Brasil?

Há meses os noticiários dos meios de informação estão focados num mesmo assunto: os escândalos de corrupção no Brasil. E não é para menos! O que tem aparecido nas denúncias e investigações é muito grave, corroborando a suspeita de que o desvio de bens públicos explica a carência de recursos para atender às necessidades prioritárias da população, como saúde, educação, saneamento básico, moradia, segurança, proteção social dos mais vulneráveis e infraestrutura em geral.

É muito dinheiro público desviado para benefícios privados ilícitos! Isso também explica por que a atividade econômica é onerada com uma carga tributária sufocante. Pior de tudo: a corrupção nas altas esferas da vida pública e da atividade econômica acaba funcionando como um vírus contagioso, que se difunde facilmente e pode infectar as fibras morais das pessoas. Diante do mau exemplo que vem de cima, como os cidadãos comuns ainda se podem sentir motivados a ser honestos e a cumprir bem os seus deveres? Por que não embarcariam também na onda das vantagens fáceis e ilícitas? Chegou a hora de nos perguntarmos: para onde queremos que o Brasil vá?

No final da sua recente assembleia-geral, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu uma declaração forte “sobre o grave momento nacional”. Nela se listam vários motivos de apreensão para a população brasileira, perplexa diante da delicada conjuntura política, econômica, social e moral por que o Brasil vem passando. Não dá para negar que o momento é muito delicado.

Diante da série de mazelas ligadas à corrupção, à violência contra a pessoa e a vida, ao degrado ambiental, à perda de qualidade da educação e do atendimento à saúde, ao desmantelamento da família, à desagregação do tecido social e ao crescimento do crime organizado, os bispos apontam um fator comum e constante: a perda ou o desprezo dos referenciais éticos e dos princípios morais nas relações pessoais e sociais e nas instituições públicas. Se cada indivíduo ou organização pautar a sua conduta por interesses subjetivos, não os relacionando com o que é bom, digno, justo e honesto também em relação aos outros, só pode aparecer o caos no convívio social. A retomada urgente dos caminhos da ética e da moral é condição indispensável para que a sociedade consiga lutar contra os males mais evidentes que a afligem.

Essa retomada passa também pelo respeito efetivo a questões essenciais à vida social, econômica e política, como a primazia da pessoa e de sua inalienável dignidade sobre o mercado e do trabalho sobre o capital. A isso se acrescente ainda a primazia do Estado sobre o mercado: não deve o Estado ser governado pelo mercado, mas o contrário. A inversão desses referenciais da ordem social, econômica e política tem consequências altamente danosas, sobretudo para os mais desprotegidos e vulneráveis da população. Bem lembrou o papa Francisco: “O dinheiro deve servir, e não governar”.

Os bispos referem-se ao desencanto e descrédito de políticos e da política e até mesmo dos poderes públicos. Esse estado de coisas revela certa desconexão entre política e sociedade: esta não se sente respeitada e representada pelos ocupantes dos Poderes, nem atendida na promoção do bem comum. “É preciso construir uma democracia verdadeiramente participativa”, superando vícios antigos e resistentes da política brasileira, como o clientelismo e o fisiologismo partidário, “que leva a barganhas sem escrúpulos”, na busca de vantagens privadas e pouco transparentes no exercício da função pública.

O mal-estar com os políticos tende a levar à rejeição da representação partidária e até do exercício da política. Mas isso seria um grave equívoco, pois criaria um clima favorável ao surgimento de propostas populistas, autoritárias e intolerantes de exercício do poder. A História adverte contra os riscos de semelhantes escolhas. Antes que tal aconteça, seria necessário avançar numa verdadeira reforma política, com um controle mais eficaz da sociedade sobre o exercício dos poderes conferidos democraticamente.

Cresce a agressividade no meio da população. As mídias sociais, muitas vezes levadas por informações parciais, desempenham um papel relevante na difusão de ideias e na agregação de tendências. Nisso pode haver um lado positivo, por revelar que há muita gente atenta, querendo ver as coisas mudarem para melhor. Mais que à agressividade, porém, essa crescente polarização de posições deveria levar ao diálogo e a uma dialética propositiva na busca de caminhos em benefício do bem comum. A polarização fechada é estéril, pode aprofundar feridas e levar à convulsão social.

A declaração da CNBB faz referência a uma série de fatores que dão origem à insegurança e à violência, como a exclusão social persistente de amplos setores da população, os conflitos fundiários no campo e na cidade, a desatenção aos direitos dos indígenas, a situação deplorável do sistema carcerário, o tráfico de drogas e outros negócios ilícitos. O Brasil tem um número elevadíssimo de assassinatos a cada ano! É provável que a violência continue a aumentar e a se alastrar sempre mais.

Não basta denunciar os males, é preciso indicar caminhos para a solução dos problemas e colaborar efetivamente para mudar essa situação. É desnecessário dizer que se espera dos legítimos representantes dos poderes públicos o exercício fiel e honesto de suas atribuições em favor do País e do povo. Mas à própria população também cabe fazer bem a sua parte, vigiando atentamente o desempenho dos detentores de poder. A declaração da CNBB conclui com um apelo a todo o povo brasileiro: estão em suas mãos a missão e o poder das escolhas para um Brasil melhor.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo