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Matéria de capa › 05/02/2019

Juventude: Sala de espera da vida?

O istmo do Panamá une dois grandes Continentes: América do Sul e América Centro-Norte. O canal do Panamá une dois grandes oceanos: Pacífico e Atlântico. Hoje, o Panamá une a humanidade inteira nesta Jornada Mundial da Juventude. Assim o Papa Francisco iniciou sua saudação aos jovens reunidos na ampla orla litorânea da Cidade do Panamá. Era um mar de gente jovem, com as cores, raças, culturas e bandeiras de todos os povos da Terra. Predominavam os rostos ameríndios centro-americanos, com seus chapéus, roupas coloridas e sua alegria simples. A Jornada do Panamá, apesar da sede na simpática capital panamenha, foi pensada como a Jornada centro-americana.

Alegres, os jovens acolheram o Papa com cantos, danças e bandeiras bafejadas pela brisa do Pacífico. Alguns entoavam: “Esta é a juventude do Papa”, refrão cantado na Jornada de Madri (Espanha), em 2010, pelos jovens que tiveram que enfrentar, naquela ocasião, a resistência e até a truculência de manifestantes contrários à Jornada e ao Papa. Agora, o clima era bem outro: nenhuma manifestação agressiva contra os “jovens do Papa”. Logo, alguém observou ao microfone: “Esta não é só a juventude do Papa: é a juventude da Igreja, a juventude de Cristo!”

Francisco, muito à vontade com os jovens, recordou: “Em Cracóvia, há menos de três anos, após anunciar que o Panamá seria a sede da próxima Jornada, alguém me perguntou: O senhor também vai estar lá? E respondi: Não sei se estarei lá, mas tenho a certeza de que Pedro vai estar lá”. E Pedro, na pessoa de Francisco, estava no Panamá, acolhendo com carinho de pai a Igreja de rosto jovem, que o escutava atentamente. Voltou aos seus temas caros, como a cultura do encontro, em vez do fechamento: “Somos muitos, somos diferentes, somos de raças, línguas, culturas e histórias diversas, vestimos roupas diferentes, mas isso não nos separa nem nos impede de estarmos juntos. Não é motivo para desconfiança recíproca, de indiferença ou de ódio; não é razão para levantar suspeitas e muros, mas para construir pontes de diálogo e amizade. Quando nos conhecemos, começamos a perder o medo uns dos outros e nos acolhemos com respeito, compreendendo que nossas diferenças, ao invés de serem ameaças, são riquezas que podem ser compartilhadas e postas ao serviço uns dos outros”.

Francisco referiu-se aos muitos conflitos que ainda desunem os povos, aos motivos que fazem surgir as guerras, causam migrações forçadas e são a origem de tanto sofrimento. Lembrou o vazio e a tristeza dos egoísmos, dos corações que perdem a sensibilidade e das fronteiras que repelem e se fecham, ao invés de acolher e socorrer a tantos que sofrem as consequências dos conflitos e das políticas sociais e econômicas excludentes.

“Aqui ninguém veio obrigado, nem por necessidade externa. Aqui vocês vieram atraídos pela beleza do encontro, que une a todos num só coração. Na verdade, quem os atraiu para cá e os une em torno de si é Jesus Cristo, Aquele que nos ama com amor infinito. Ele nos une na Igreja em torno de si, caminha à nossa frente, nos mostra o caminho bom e nos enche de esperança.” O tema da esperança voltou em diversos momentos das mensagens dirigidas pelo Papa aos jovens.

Mas ele também interpelou os adultos: “Só tem futuro aquilo que está bem enraizado e tem base boa. Sobre quais bases os jovens estão construindo sua vida? Nós, os adultos, como estamos ajudando os jovens a terem bases boas e raízes profundas para sua vida e seu futuro? A cultura do efêmero e do descarte, o consumismo e o conformismo deixam o vazio e formam jovens derrotados diante da vida. Quais raízes estamos dando aos jovens?”. E mencionou quatro raízes indispensáveis para os jovens: educação, trabalho, família e comunidade. Sem essas bases, os jovens serão consumidores conformados com o sistema e não lutadores, inventores do amanhã.

Os jovens não estão na sala de espera da vida, disse o Papa na homilia conclusiva: eles precisam viver o hoje de suas vidas com esperança. Não lhes serve um futuro sem risco, “higienicamente preparado” e bem empacotado, disse Francisco. Não precisam de um futuro de laboratório, que já recebem pronto, conformados. Os jovens devem empenhar-se no hoje de suas vidas. “A juventude é a hora de Deus; não o futuro de Deus em suas vidas. Deus os convoca e chama agora a realizarem grandes coisas, com amor e paixão! Coragem, portanto! E caminhem!”

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Via Arquidiocese de São Paulo