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Artigos › 01/02/2017

In meam commemorationem: A propósito dos meus 15 anos de bispo

Atrás das várias formas de atuação da Igreja, ou das Igrejas, há diferentes ideias de Igreja, que determinam a sua ação e encarnação histórica. A mesma coisa vale para as expectativas que se tem em relação àquilo que a Igreja deveria ser e como deveria se apresentar na sociedade. E então nos perguntamos: como deve ser e atuar a Igreja?

Deve ela ser uma espécie de empresa, com o objetivo da eficiência na administração dos bens para conseguir o melhor ganho econômico e financeiro através de sua atuação? Deve ela ser uma organização de sucesso, que pode ostentar os resultados mais lisonjeiros de prestígio e reconhecimento público e até político? Uma iniciativa econômica especializada em “bens religiosos”, colocados no mercado e expostos à concorrência, de acordo com o gosto dos consumidores? Deveria ela identificar-se com alguma ideologia, que abraça um sonho de construção do mundo e promove iniciativas para a realização desse sonho?

Muitas vezes, a Igreja é confundida com um empreendimento econômico, um partido político, um movimento social inspirado por alguma ideologia, uma espécie de fundação cultural, patrocinadora e protetora de patrimônios artísticos e culturais… E isso pode estar na cabeça dos que estão à frente das Igrejas, nas expectativas dos que a procuram ou na ideia de quem, de fora e de longe, fala da Igreja.

Em todas essas maneiras de ver a Igreja há erros, equívocos e insuficiências na maneira de compreender a Igreja. Embora ela também deva tratar e cuidar de questões econômicas, administrativas, políticas e culturais, a Igreja, no entanto, existe em primeiro lugar para ser no mundo a testemunha de Jesus Cristo e anunciadora do seu Evangelho. Ela existe em função de Jesus Cristo e de sua missão que, após a sua glorificação no céu, continuou com os apóstolos e continua através dos tempos. Essa é a identidade primeira da Igreja, que também deve orientar toda a sua atuação histórica.

Quando instituiu a Eucaristia, na última ceia, Jesus ordenou aos Apóstolos: “fazei isto em memória de mim” – in meam commemorationem (Lc 22,19). Ele se referia ao seu “corpo doado” e ao seu “sangue derramado”. Era a referência à sua morte na cruz, mas também à sua inteira vida doada pela humanidade, desde o primeiro instante de sua vinda ao mundo. Portanto, é em memória dEle, tendo-O sempre diante dos olhos, que também a Igreja deve fazer-se presente no mundo e exercer a sua missão.

A “memória de Jesus Cristo”, para nós, não é simples lembrança de uma ação do passado, mas a contínua consciência de que Jesus Cristo e sua Igreja estão unidos; ela nada seria, nem teria força e eficácia nas suas ações, sem estar unida a Cristo. Em última análise, na vida e na ação da Igreja, é o próprio Jesus Cristo que continua a agir através do seu Espírito Santo. Sem a constante referência a Cristo, a Igreja seria apenas uma ONG ou um empreendimento humano, que atua com objetivos, estratégias e eficácia próprios, talvez até distantes daquilo que Jesus esperavas dela, ao dizer aos discípulos: “Ide por todo o mundo, anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mt 28, 19). Ou quando disse aos apóstolos: “vós sois testemunhas dessas coisas” (Lc 24,48).

Em memória de Jesus Cristo, portanto, nós anunciamos o Evangelho, celebramos a Eucaristia e os demais Sacramentos e atos litúrgicos; em memória de Jesus Cristo, nós promovemos as atividades missionárias, evangelizadoras e pastorais. Com a mesma motivação e pelo mesmo motivo, promovemos a educação e a comunicação; atuamos na internet, na vida política e econômica, participamos de modo responsável da ecologia e dos cuidados da “casa comum”. Em memória de Jesus Cristo, promovemos a caridade, a justiça e a solidariedade social; e também defendemos a inviolabilidade da vida e da dignidade de cada ser humano, promovemos o respeito aos direitos humanos, o cuidado dos doentes, dos pobres e de todos os “descartados” do convívio humano. Em memória de Cristo, enfim, anunciamos a esperança a todos, aquela grande esperança, que supera tudo aquilo que o homem pode dar a si mesmo e que está fundada no Deus vivo e fiel a si mesmo e às suas promessas.

Portanto, para ser fiel a si mesma e à missão recebida, a Igreja, corpo vivo de Cristo na história, não poderia jamais ser identificada com nenhum governo, partido político ou sistema econômico, com nenhum movimento social ou cultural, nenhuma ideologia ou corrente filosófica. Ela é diferente de tudo isso, embora esteja misturada a tudo isso. Em sua maneira de ser, de agir e estar no mundo, a Igreja, é o “corpo de Cristo” na história e, por isso, deve ter sempre diante dos olhos Jesus Cristo, “Senhor da Igreja”. Tudo deve fazer em memória dele – “in meam commemorationem”.

Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de S.Paulo
Publicado no Jornal O SÃO PAULO,  edição 3136 de 01/02/2017 a 07/02/2017