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Artigos, Editorial › 25/10/2017

Sínodo e missão: Jesus Cristo no centro

Tantos são os modos de falar da Igreja. Certamente, ela possui muito daquilo que é próprio das sociedades e organizações humanas, uma vez que também a Igreja é feita de pessoas e realidades humanas, usa meios humanos e expressa humanamente suas convicções e valores. Mas, não é só isso. Ela não pode ser identificada somente com as realidades humanas. A Igreja tem Cristo no seu centro e também é animada pelo Espírito de Deus.

Em sua Mensagem para a Jornada Missionária Mundial, celebrada no domingo, 22 de outubro, o Papa Francisco abordou o tema da centralidade de Jesus Cristo e da ação do Espírito Santo para a Igreja. Esta existe, vive e exerce sua missão a partir de Jesus Cristo e do dom do Espírito Santo. Se não fosse assim, ela não passaria de uma organização humana e poderia fazer muitas coisas interessantes, mas perderia bem depressa a sua identidade e sua vitalidade.

Se a Igreja subsiste há dois milênios não é em função da própria capacidade, mas porque é uma realidade humana e também divina. O humano é frágil e falha. O divino é firme e confere vitalidade sempre nova ao humano na Igreja, quando ela se volta com confiança e docilidade para o seu Senhor. É isso que buscamos com a celebração do sínodo arquidiocesano de São Paulo: que sejamos, com a ajuda do Espírito de Cristo, uma Igreja que busca a comunhão, a conversão e a renovação missionária.

O Papa Francisco também aponta para uma outra questão importante da nossa fé na Igreja: a centralidade da missão, que não é, apenas, uma ação fundamental, mas faz parte da essência da nossa fé na Igreja. Quando dizemos – “creio na Igreja” – isso também significa imediatamente dizer: creio na Igreja, que é missionária por vontade de Jesus Cristo, desde a origem. “A missão está no coração da fé cristã”, afirma o Papa, porque a Igreja é missionária na sua origem e essência. Sem ser missionária, ela não é a Igreja que Cristo quis e quer. E, não o sendo, ela perde bem depressa a sua razão de ser e sua vitalidade.

A missão da Igreja outra coisa não é do que dar o testemunho de Jesus Cristo e do Evangelho do reino de Deus no mundo. A missão da Igreja está intimamente relacionada com a do próprio Jesus: “como o Pai me enviou ao mundo, assim eu vos envio…” (Jo 20,21). A Igreja continua, depois da ascensão de Jesus ao céu, a proclamar o Evangelho e a testemunhar, na força do Espírito Santo, a novidade do reino de Deus ao mundo. No meio das buscas humanas por verdade, bondade, beleza, justiça, felicidade e sentido da vida, a Igreja é missionária de Jesus Cristo Salvador, “caminho, verdade e vida” (cf. Jo 14,6).

Através do testemunho de sua vida e das obras da fé, esperança e caridade, de sua prática moral de justiça, retidão e empenho pela defesa e valorização da vida e da pessoa humana e de toda obra de Deus Criador, a Igreja é missionária do bem supremo do reino de Deus, já presente entre nós, mas
ainda não de forma plena. “O anúncio do Evangelho se torna palavra viva e eficaz, que realiza o que proclama (cf. Is 55,10-11). Assim, através da ação missionária da Igreja, Jesus Cristo se faz presente e atuante em cada situação humana. Mediante a ação do Espírito Santo na Igreja, de alguma forma, o Verbo de Deus continua a se fazer carne na história (cf. Jo 1,14) e a ser proclamado.

O sínodo arquidiocesano deve contribuir para a renovação da consciência sobre essa primeira missão da Igreja e de cada organização dentro da Arquidiocese: paróquia, comunidades menores, comunidades religiosas e novas comunidades, movimentos, associações, famílias… A existência de todas essas expressões de vida eclesial encontra sua primeira razão de ser no fato de participar da missão da Igreja: testemunhar Jesus Cristo e anunciar o reino de Deus. É isso que expressa o lema do sínodo: somos testemunhas de Deus na cidade de São Paulo!

O Papa Francisco alerta ainda: a missão da Igreja não consiste na propagação de uma ideologia religiosa ou política, nem mesmo na proposta de uma ética sublime, embora esta esteja implicada no Evangelho. A ação missionária tem a finalidade de levar as pessoas ao encontro com Jesus, para se tornarem discípulas e encontrarem Nele o caminho, a verdade e a vida. Jesus Cristo é o centro da ação missionária da Igreja. Esta, por sua vez, só será autêntica e eficaz se também partir de Jesus Cristo e se deixar orientar por ele.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Artigo publicado no jornal “O SÃO PAULO“, edição 25/10/2017