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Matéria de capa › 16/07/2018

Sínodo arquidiocesano: como estamos?

O primeiro ano do sínodo arquidiocesano está sendo dedicado a uma grande tomada de consciência da situação sócio religiosa e pastoral na Igreja particular de São Paulo. Como estamos, em cada uma de nossas comunidades paroquiais, em cada organização eclesial e pastoral? Qual é o rosto de cada uma de nossas comunidades? Em breve, vai ser realizado um grande levantamento sobre a situação religiosa e pastoral em cada paróquia e em toda a Arquidiocese de São Paulo.

Há muitos anos, desde o Concílio Vaticano II, a Igreja está sendo chamada a se renovar na sua vida e na sua missão. Muitos documentos importantes sobre isso já foram produzidos em grandes reuniões eclesiais, como o próprio Concílio, as assembleias do Sínodo dos Bispos, as Conferências Gerais do Episcopado da América Latina e do Caribe, como a de Aparecida (2007), assembleias da CNBB, sem esquecer os importantes documentos do magistério do Papa Francisco e de seus predecessores. Todos apontam para a mesma direção: a retomada da missão e da evangelização, a conversão pessoal e comunitária a Deus e aos caminhos do Evangelho, o testemunho eloquente do Evangelho.

“Não podemos continuar, apenas, com uma pastoral de conservação; precisamos fazer uma pastoral decididamente missionária” (Documento de Aparecida). E o Papa Francisco nos chama a sermos uma “Igreja em saída missionária”, em estado permanente de missão. Não podemos continuar a fazer as coisas, como se nada tivesse mudado ao nosso redor! Passamos por uma importante mudança de época. O mundo contemporâneo, a cultura e os novos modos de vida e de interação das pessoas trouxeram profundas mudanças. E tudo isso afeta fortemente as convicções e atitudes religiosas e morais das pessoas e os modos de vida na sociedade. Muitas vezes, é para melhor. Outras vezes, certamente não.

Estamos cientes dos efeitos dessa mudança de época sobre o nosso povo católico e nossas comunidades? A mensagem da Igreja ainda atinge as pessoas? A quantas, de fato, alcançamos com nossas pregações e documentos? Como reagem as pessoas à mensagem da Igreja? Quem são e que perfil têm as pessoas que frequentam nossa Igreja e são atingidas, de alguma maneira, pela sua mensagem? Conseguimos alcançar e envolver as novas gerações, crianças, adolescentes e jovens? Como anda a vida sacramental, expressão importante da fé católica e da vida da Igreja? Como está a frequência à missa dominical, a procura do batismo das crianças, a confissão, o casamento religioso? E na catequese, como processo de iniciação e aprofundamento da fé e da vida cristã, estão, ao menos, as famílias e pessoas católicas? Com qual intensidade é feita a caridade organizada, enquanto como testemunho indispensável e fruto da fé nas nossas comunidades? Os cristãos leigos e leigas, “sal da terra e fermento na massa”, estão envolvidos na promoção do bem comum, na edificação da sociedade justa e fraterna e no zelo pela “casa comum”?

Essas perguntas e muitas outras serão objeto de uma pesquisa promovida em todas as paróquias da Arquidiocese em vista do levantamento da realidade social, religiosa e pastoral de cada comunidade. E em cada paróquia será feito mais um levantamento sobre os indicadores objetivos dos serviços religiosos e pastorais oferecidos pelas paróquias. Para promover a “conversão pastoral e missionária”, precisamos estar conscientes dos reais desafios e urgências que temos a enfrentar na evangelização durante os próximos anos. Os dados oferecidos por esses levantamentos, junto com as indicações e contribuições dos grupos do sínodo nas comunidades, serão matéria de reflexão e discernimento nas assembleias do sínodo nas paróquias nos meses de outubro e novembro deste ano.

As preocupações com as necessárias mudanças de atitude e de ação não podem ficar apenas nos altos níveis das responsabilidades da Igreja. Não basta que o Papa ou uma assembleia dos Bispos façam documentos e apelos em favor da nova evangelização: é preciso que essas chamadas, decorrentes do Evangelho, da voz das circunstâncias e do zelo pastoral, cheguem às pessoas e comunidades locais e concretas da Igreja. De fato, a Igreja é, antes e acima de tudo, uma grande comunidade de pessoas reunidas em torno de Cristo pela fé e pela vida orientada pelo Evangelho.

As organizações e estruturas da Igreja são necessárias, assim como suas doutrinas e normas de organização e de vida. Mas estas estão em função do bem da Igreja, que é a graça do Evangelho, e das pessoas, que fazem a Igreja ser o povo de Deus, a comunidade dos testemunhas e missionários de Jesus Cristo no mundo. Por isso, a preocupação com as mudanças e a renovação não pode ficar apenas voltada para as estruturas e organizações da Igreja: ela precisa chegar às pessoas e comunidades vivas da Igreja.

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 12/07/2018