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Sacerdotes segundo o coração de Cristo

No dia 8 de junho, a Igreja celebra a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, como faz todos os anos na segunda sexta-feira após a solenidade litúrgica da Santíssima Trindade. É uma festa muito significativa, que traz o simbolismo rico do coração. Jesus, o Filho de Deus, enquanto verdadeiro homem, tinha coração com sentimentos e emoções, como nós temos; e experimentou os afetos do coração materno e paterno, dos parentes e amigos. E também a dor dos afetos feridos, como na traição de Judas. O Filho de Deus compartilhou conosco a experiência da nossa natureza humana, na sua forma mais genuína, sem desvios ou expressões desordenadas.

Mas é ainda mais admirável pensar que o coração humano do Filho de Deus, unido a Deus Pai por um único e infinito amor, é para nós a expressão humana do amor de Deus, que não nos amou apenas com um amor espiritual, mas com afeto humano. O Sagrado Coração de Jesus é o ícone desse “amor divino-humano” de Deus por nós. E isso significa também que as expressões genuínas dos afetos, sentimentos e emoções do amor humano foram elevadas e dignificadas infinitamente. Certamente, foi isso que o apóstolo São João quis dizer, ao afirmar: “o amor vem de Deus e quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,7-8). E São Francisco, uma vez compreendendo isso, saiu pelas ruas, clamando e chorando de dor: “o amor não é amado!”

A festa solene do Sagrado Coração de Jesus nos fala do amor infinito de Deus e da sua misericórdia sem limites, que se manifestou por nós de modo máximo na entrega do Filho por nós sobre a cruz: “Deus tanto amou o mundo, que lhe entregou seu Filho único, para que não pereça todo aquele que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). O coração de Jesus, aberto pela lança, do qual saem sangue e água (cf. Jo 19,34) nos fala do coração paterno de Deus, sempre aberto para acolher o filho pródigo que a ele volta e dele se aproxima com sincera conversão. O sangue e a água que brotam do coração aberto de Jesus lembram a vida em plenitude oferecida aos homens que se achegam a essa fonte inesgotável de misericórdia, perdão e graça.

Nesta semana, de 5 a 7 de junho, os bispos do Regional Sul 1, das dioceses do Estado de São Paulo, reúnem-se em sua assembleia anual, em Itaici, para refletir sobre a formação dos sacerdotes: o mesmo que foi tratado na assembleia geral da CNBB, em abril passado. A boa formação sacerdotal está no centro das preocupações da Igreja, uma vez que a vida e a missão da Igreja dependem muito dos ministros de Cristo e da sua Igreja. O exercício do sacerdócio, no dizer de Santo Agostinho, é “ amoris officium ” – tarefa de amor, realizada mediante a dedicação amorosa da vida ao serviço de Deus e dos irmãos. Longe de ser uma profissão, como tantas outras, o sacerdócio é uma consagração da vida, por amor e não por outra razão.

Por isso, o sacerdócio ministerial possui estreita relação com o Sagrado Coração de Jesus, e os sacerdotes, no exercício do seu ministério, são chamados a se inspirar no coração de Cristo, Bom Pastor e Bom Samaritano da humanidade. “Dar-vos-ei sacerdotes segundo o meu coração” (Jr 3,15), anunciou Deus através do profeta Jeremias. E pela boca de Ezequiel, reprovou os maus pastores, que descuidaram do rebanho e só pensaram no próprio interesse e não no bem das ovelhas (cf. Ez 34). Os sacerdotes, ministros de Cristo e da Igreja, devem ser esses pastores segundo o coração de Deus e de seu Filho Jesus Cristo. Através deles, Deus quer continuar a “amar humanamente” as pessoas e a lhes mostrar, de maneira humana, os sentimentos e afetos do seu divino coração. De fato, o sacerdote é chamado a ser uma imagem sacramental desse amor divino. Essa missão alta só pode ser exercida mediante a comunhão e a sintonia íntima com o coração de Deus e de Cristo. É por isso que os sacerdotes são ungidos pelo Espírito Santo para serem “pessoas sacerdotais”, e não apenas para exercerem algumas funções sacerdotais.

Desde o Papa São João Paulo II, a Igreja convida a rezar especialmente pela santificação dos sacerdotes na festa solene do Sagrado Coração de Jesus, a fim de que possam exercer o seu ministério de maneira digna e santa, uma vez que eles são consagrados para as “coisas santas” em favor dos seus irmãos. Ser sacerdote segundo o coração de Deus e de Jesus é missão que vai além da capacidades humanas. Os sacerdotes permanecem humanos e “rodeados de fraqueza” (Hb 5,2). Mas a graça do Espírito de Deus os capacita para exercerem seu ministério. E toda a comunidade é convidada a rezar pela santificação dos seus sacerdotes, de maneira especial na solenidade do Sagrado Coração de Jesus.

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 05/06/2018 via http://arquisp.org.br