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Matéria de capa › 13/08/2018

Renovação eclesial inadiável

O sínodo arquidiocesano de São Paulo é proposto como um “caminho de comunhão, conversão e renovação missionária” para a Igreja em São Paulo. Para promover essa “conversão e renovação missionária”, por onde começar? O que priorizar? Mudar primeiro as estruturas ou priorizar a renovação da consciência, da mentalidade, da cultura eclesial e das atitudes pastorais?

Na Conferência de Aparecida, em 2007, os Bispos da América Latina e do Caribe indicaram a segunda alternativa, ao falarem da necessidade de ir além do trabalho de mera conservação e manutenção da Igreja. Ela precisa colocar-se “em estado permanente de missão” se quiser se renovar (cf.Documento de Aparecida, 201 e 551).

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii gaudium (“A Alegria do Evangelho”, 2013, EG) propôs isso como meta e programa para toda a Igreja: “espero que todas as comunidades se esforcem para empregar os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não se contente em deixar as coisas como estão”. A Igreja, na situação atual, precisa ir além da mera administração, e assumir uma nova atitude missionária (cf. EG 25).

Ainda durante o Concílio Vaticano II, Paulo VI já havia feito o apelo à renovação: “é necessário que a Igreja aprofunde a consciência de si mesma e medite sobre seu próprio mistério”. E observava que, justamente, dessa tomada de consciência lúcida e operante viria o desejo de comparar a Igreja que somos com a Igreja que Cristo quer que sejamos. E, como consequência, ficaria clara a necessidade de “uma impaciente renovação” da Igreja (cf. Ecclesiam suam , 1964, 10-12).

O Concílio chamou a Igreja a se colocar em estado de permanente reforma. Evidentemente, essa reforma não devia significar a rejeição do seu passado, nem da sua própria natureza e missão. Mas é certo que, pelo seu lado humano e histórico, a Igreja precisa de constante renovação. E essa reforma e renovação deveriam ter como meta, acima de tudo, a fidelidade sempre maior da Igreja a Jesus Cristo, a si mesma e à sua vocação e missão (cf. Concílio, Unitatis redintegratio, 6).

Infelizmente, a “conversão e renovação da Igreja” acabam rapidamente sendo identificadas com a “reforma das estruturas”. Isso até pode ser necessário, mas a mudança das estruturas, sem a mudança do espírito que as anima, não levaria a uma verdadeira renovação da Igreja. Não basta mudar os vasos para se ter vinho novo: é preciso mudar o vinho nos vasos. Não se podem esperar frutos saudáveis e saborosos de uma planta descuidada e enfraquecida: é preciso revigorar a planta e cuidar bem dela, para aparecerem frutos novos, abundantes e saborosos. A reforma das estruturas, por si só, não faz a reforma da Igreja e poderia levar a Igreja a ficar voltada apenas para si mesma. São João Paulo II ensinava que “toda renovação da Igreja deve ter como objetivo a missão, para não ser vítima de uma espécie de introversão eclesial” ( Ecclesia in Oceania , 2001,19). O Papa Francisco fala do risco de nos tornarmos “autorreferenciais”.

Por isso, Francisco aponta para a Igreja dos nossos dias “uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda estrutura eclesial se tornem um canal adequado, mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG 27). A renovação das estruturas será possível e virá como consequência dessa necessária conversão pessoal e conversão pastoral e missionária da Igreja, entendida como comunidade viva de fé e testemunho do Evangelho. Nesse sentido, Francisco fala da necessidade de uma “renovação inadiável”, que perpasse toda a vida e organização da Igreja. E mostra como as paróquias precisam renovar-se mediante novas atitudes e posturas missionárias, tornando-se “Igreja em saída” e “Igreja que vive no meio do povo”. Essa renovação deve passar por todos os níveis de organização e de ação pastoral, tendo sempre bem presente a natureza e o objetivo missionário da vida e da ação da Igreja (cf. EG 27-30), sem medo de abandonar a “zona de conforto” e a cômoda justificativa de que “sempre se fez assim”.

É essa a proposta no nosso sínodo arquidiocesano. Os grupos sinodais nas paróquias, ao longo de 2018, são chamados a uma renovada consciência sobre a vida e a missão da Igreja e a avaliar, até que ponto a “Igreja que somos” em cada paróquia e comunidade corresponde à “Igreja que devemos ser”. O mesmo se busca também com o levantamento de campo sobre a realidade religiosa e pastoral de cada paróquia e com a pesquisa sobre os dados objetivos da vida paroquial e os serviços pastorais e evangelizadores ali oferecidos. Esse esforço de “olhar-se no espelho” deverá levar à conversão e renovação missionária, tão necessária em toda a nossa Arquidiocese.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 08/08/2018