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Artigos › 03/11/2016

Quantos são os santos no céu?

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Quantos são os santos da Igreja? Essa pergunta pode vir de uma simples curiosidade a respeito daqueles que a Igreja proclamou “santos” e, então, a resposta será possível mediante um levantamento cuidadoso do número daqueles que já foram inscritos oficialmente no “cânon”, ou seja, na lista dos santos assim reconhecidos e proclamados pela Igreja. Mesmo assim, não será sempre fácil fazer esse levantamento, pois o método da canonização, ao longo da história da Igreja, não foi sempre o mesmo que conhecemos hoje.

Porém, a pergunta poderia revelar também a necessidade de compreender melhor o conceito de santidade que a Igreja usa, desde os seus inícios. Santas são as pessoas de Deus, que vivem em sintonia e comunhão com Deus, os amigos de Deus e servidores de sua obra; aqueles que realizam a vontade de Deus durante a vida. Em poucas palavras, são santas as pessoas que vivem unidas a Deus e recebem de Deus a graça da santidade. Quem se aproxima do fogo é aquecido pelo seu calor. Quem se aproxima de Deus é santificado, porque Deus é santo.

Já no Antigo Testamento era recomendado ao Povo de Deus: “sede santos porque eu, vosso Deus, sou santo!” (Lv 19,2). Jesus ensinou o caminho da santidade e os apóstolos, sobretudo Paulo, ensinaram explicitamente que a santidade é a grande meta da nossa vida: “desde toda a eternidade, Deus nos chamou santos e íntegros diante dele no amor” (Ef 1,4). Na Carta aos Romanos, São Paulo chama “santos por vocação” a todos os batizados (cf. Rm 1,7). São João, nos seus escritos, insiste na ideia da santidade como comunhão com Deus: quem está unido a Cristo e a Deus Pai é santo (cf. Jo 17); quem vive o amor a Deus e ao próximo é santo. O Evangelho é rico de indicações para a vivência da santidade.

No céu e na vida eterna só há lugar para os santos e, neste caso, é preciso ampliar ainda mais o conceito de santidade. A santidade consiste, neste caso, no fato de ter sido redimidos pela misericórdia de Deus, que não quer que ninguém se perca (cf. Jo 6,39; 18,19). Entra na vida eterna quem aceita a mão estendida de Deus, quem se deixa encontrar pelo Bom Pastor da humanidade, que “veio para buscar e salvar o que estava perdido” (cf Mt 18,11). Jesus Cristo é o caminho que nos leva a Deus, a verdade que nos ajuda a não errar o grande rumo na vida (cf. Jo 14,6).

Jesus Cristo é o “rosto misericordioso de Deus”, sempre voltado para a humanidade; por meio dele, todos podem ser salvos e entrar na vida eterna. Por meio dele, é que recebemos o perdão e a misericórdia de Deus e o Espírito santificador. Mas, por vias misteriosas conhecidas somente por Deus, e que o Espírito Santo oferece a todos, podem ser salvos também aqueles que nunca ouviram falar de Cristo e do Evangelho (cf. GS 16). Em outras palavras, todos podem ser santos.

Todas as pessoas que estão no céu são santas e são “uma multidão imensa, de todas as tribos, línguas, povos e nações, que ninguém consegue contar” (cf Ap 7,9). É a todos esses “santos”, mesmo desconhecidos, que Igreja recorda na solenidade litúrgica de Todos os Santos. Os santos no céu são aqueles que já chegaram “na casa do Pai” (cf. Jo 14,2); são os peregrinos que já alcançaram a “Jerusalém celeste”
e a pátria definitiva (cf. Fp 3,20; Hb 11,6), buscada com esperança e perseverança no caminhar desta vida.

Os santos, que a Igreja canonizou e continua a canonizar, representam o fruto maduro da “colheita do Senhor” (cf. Mt 13,30). São os servidores bons e fiéis que o Senhor convidou para participarem “da alegria do seu Senhor” (cf. Mt 25,21); eles são exemplos de vivência do Evangelho e do seguimento de Jesus, que nos encorajam continuamente, com a sua intercessão, a fazer o mesmo que eles fizeram. Os santos são a glória da Igreja, são os grandes cristãos, os católicos fiéis, os verdadeiros discípulos de Cristo, que acreditaram nas palavras de Jesus e “edificaram sua casa sobre a rocha” (cf. Mt 7,24). São aqueles que, durante esta vida, observaram os mandamentos de Deus, amaram a Deus e ao próximo e confiaram na misericórdia de Deus. São aqueles que “entraram pela porta estreita”, como Jesus recomendou (cf. Mt 7,13).

Quantos serão, pois, os santos do céu? A resposta é simples e confortadora, como já se lê no Livro do Apocalipse: são “uma multidão imensa… que ninguém pode contar! (Ap 7,9). Graças a Deus! E temos a esperança de estar entre eles, um dia, pois esta é a meta final da vida e a vocação de todos: “sereis santos porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo!” (cf. Lv 19,2).

 

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo

Publicado no Jornal O SÃO PAULO – Edição 3126 – De 2 a 8 de novembro de 2016