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Artigos, Destaques, Editorial › 15/11/2017

Pobre tem fome

É verdade, em São Paulo a obesidade já se tornou um problema e, talvez, tem chamado mais a atenção do que a desnutrição. Tenho observado, nos encontros com comunidades pobres da periferia, que também nas camadas pobres da população já existe uma tendência à obesidade entre crianças e adolescentes.

No entanto, a justa preocupação para prevenir a obesidade não deve levar a subestimar a persistência da fome em São Paulo. Pensemos só nos mais de 20 mil moradores de rua, nos habitantes de cortiços do centro e de comunidades das periferias mais pobres: embora recebam donativos espontâneos e ajudas de programas governamentais, eles não têm a possibilidade de adquirir para si e suas famílias alimentos adequados em quantidades suficientes.

Além disso, precisamos considerar a questão mais amplamente: somos parte de uma grande família humana, que vai além da nossa cidade. No Brasil ainda existe fome e são cerca de 7 milhões as pessoas que vão dormir mal alimentadas todas as noites. Em várias partes do mundo, a situação é dramática e os famintos somam mais de 800 milhões! São 11 de cada 100 habitantes do nosso planeta! Recentemente, um bispo católico do Sudão do Sul alertou para risco iminente da morte por fome de 120 mil pessoas naquele país, em guerra civil há vários anos. Esse escândalo não deveria deixar ninguém indiferente!

As causas da fome podem ser muitas, mas as principais são a degradação ambiental, as mudanças climáticas, as guerras e conflitos internos nas nações, a concentração da riqueza e da comercialização dos alimentos em poucas mãos… Por sua vez, o próprio flagelo da fome também é responsável por migrações, conflitos e doenças, que levam muitas pessoas à morte prematuramente. As mais vulneráveis são as crianças e os idosos. Na sua visita à FAO, Organismo da ONU para a agricultura e a alimentação, no dia 16 de outubro passado, dia mundial da alimentação, o papa Francisco fez um apelo em favor de maiores investimentos na agricultura e na segurança alimentar para evitar as migrações. Disse que o problema deve ser enfrentado com gestos concretos e não apenas com palavras.

O papa João Paulo II, já em 1996, havia conclamado os governantes e as organizações da sociedade para apoiarem decididamente a luta contra a fome e para aliviar os sofrimentos de quem corre o risco de morrer por falta de alimentos. E Francisco, na recente visita à FAO, chamou a atenção para a “naturalização da miséria” dos outros, com a qual nos acostumamos. A miséria humana tem o rosto de uma criança, jovem ou idoso, observou o Papa. Ela toma a figura do desempregado, dos refugiados e deserdados pelas guerras e de tantos outros, que não enxergamos por causa de nossa indiferença. A fome “não é uma doença incurável”, completou.

O escândalo da fome deveria mexer com a consciência de todos, ainda mais, quando se considera que haveria disponibilidade de alimento para resolver essa situação constrangedora da família humana. O desperdício de alimentos é imenso:  na colheita, transporte, comercialização, industrialização e até nas cozinhas e mesas dos restaurantes. O alimento desperdiçado no Brasil soma cerca de 35% do total produzido.  Todos os dias, são dezenas de milhares de toneladas de alimentos bons para o consumo, que vão para o descarte e não chegam à mesa dos famintos. No mundo inteiro, o alimento desperdiçado soma 1,3 bilhões de toneladas por ano! Isso seria suficiente para suprir de alimentos toda a população faminta, ou mal alimentada. Naturalmente, isso tem um custo econômico elevado, que passa de 940 bilhões de dólares por ano! Sem falar do custo ambiental!

O papa Francisco alerta ainda: o alimento desperdiçado é como se fosse sonegado a quem tem fome. Essa fome, que provoca tanto sofrimento ao mundo, apesar de todas as potencialidades postas à nossa disposição, é um problema grave do ponto de vista moral. É contraditório produzir alimentos para, depois, destiná-los ao desperdício, enquanto há tantas pessoas que precisariam deles para matar sua fome! Muitas vezes, conta mais a lógica do mercado e do lucro do que a fome e o sofrimento do próximo.

O desperdício de alimentos também gera um pesado ônus ambiental. No Brasil, cerca de um terço dos alimentos se perde e, numa lógica simples, isso significa que é necessário ter um terço de área cultivada a mais para produzir alimentos. A mesma conta vale para emissão de poluentes na atmosfera com o cultivo, transporte industrialização e o descarte dos alimentos nos lixões, ou mediante a sua incineração. Em toda essa cadeia de desperdício há uma enorme produção de gazes de efeito estufa prejudiciais ao equilíbrio climático. Isso não é apenas cínico diante dos que passam fome, mas também, uma grave falta de responsabilidade ambiental.

A solução para reduzir o desperdício de alimentos, o escândalo da fome no mundo e os danos ambientais passa por muitas medidas, que interessam aos cidadãos, às instituições e organizações da sociedade e também aos governos. O alimento possui uma relevante função social e faz parte do direito natural inegável de qualquer pessoa.

Diante desse quadro, não se pode ficar em discussões acadêmicas infindas, muitas vezes enredadas em questões ideológicas e partidárias. Enquanto isso, continuamos a jogar fora alimentos em boas condições de uso, ou dando-lhes uma destinação menos nobre do que a alimentação humana. A terra geme e se exaure por causa da exploração descontrolada dos recursos naturais e os pobres pagam a conta, continuando subnutridos e sujeitos a doenças, injustiçados em suas chances de participar do banquete da vida. Isso não é aceitável e interpela a consciência moral de todos. Não seria hora de deixar de lado questões ideológicas e preconceitos, para olhar com objetividade e lucidez para essa realidade?

 

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, 11 11 2017