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Artigos › 14/08/2018

Papa: clericalismo é uma perversão da Igreja

“E o clericalismo, que não é só dos clérigos, é um comportamento que diz respeito a todos nós: o clericalismo é uma perversão da Igreja”, disse o Papa Francisco aos jovens italianos reunidos no Circo Máximo, destacando a necessidade do testemunho e do sair de si mesmo: “onde não há testemunho, não há o Espírito Santo”.

Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

“O clericalismo é uma perversão na Igreja”. O Papa Francisco foi incisivo ao responder aos questionamentos propostos por Dario, de 27 anos, enfermeiro em curas paliativas, alguém “que dá testemunho todos os dias com os doentes”.

Diante de 50 mil jovens italianos presentes no Circo Máximo no último sábado, quatro deles fizeram perguntas ao Papa falando com sinceridade, como lhe agrada. Dario revelou ter dificuldades em entender “como um Deus grande e bom” permite o sofrimento de crianças, dos pobres, dos marginalizados. Ademais, considera que a Igreja, mensageira da Palavra de Deus, parece “sempre mais distante com seus rituais”. Os frequentes escândalos a tornam pouco crível. Os jovens têm necessidade de testemunho, de serem ouvidos e acompanhados, disse ele.

“Dario pôs o dedo na chaga e repetiu mais de uma vez a palavra «por que», começou dizendo Francisco, afirmando que para muitas situações, encontraremos resposta somente “olhando para Cristo crucificado e para sua Mãe”.

Testemunho

Quanto às suas observações em relação à Igreja, o Papa diz escutar “com respeito”, “é um juízo sobre todos nós”, de modo especial “para nós pastores”, “os consagrados, as consagradas”. “Nem sempre é assim, mas às vezes é verdadeiro”, ponderou, acrescentando que para ser capaz de dar uma resposta positiva às expectativas daqueles que esperam um testemunho autêntico, serem acompanhados e ouvidos, é preciso que “o cristão, seja um fiel leigo, um sacerdote, uma irmã, um bispo”, aprenda “a escutar o sofrimento, a escutar os problemas, a estar em silêncio e deixar falar e ouvir”:

“ E tantas vezes as respostas positivas não podem ser dadas com as palavras: devem ser dadas arriscando a si mesmo no testemunho. Onde não há testemunho, não há o Espírito Santo. ”

Por esse motivo se dizia a respeito dos primeiros cristãos: “Vejam como se amam!”, “porque as pessoas viam o seu testemunho. Sabiam escutar, e depois viviam segundo o Evangelho”.

“Ser cristão, não é um status de vida, um status qualificado”, diz o Papa, chamando a atenção pra o tipo de oração: «Te agradeço Senhor, porque sou cristão e não sou como os outros que não acreditam em Ti», que é “a oração do fariseu, do hipócrita. Assim rezam os hipócritas”.

“Mas pobre gente, não entendem nada. Não foram à catequese, não estudaram em um colégio católico, não estudaram em uma universidade católica”. “Isto é cristão?”, pergunta Francisco.

“Isto escandaliza, isto é pecado. «Te agradeço Senhor, porque não sou como os outros. Vou à Missa aos domingos, eu faço isso, tenho uma vida ordenada, me confesso, não sou como os outros» Isso é cristão?”, questiona. “Não. Devemos escolher o testemunho”, começar a viver como cristãos, então despertaremos a curiosidade que nos perguntarão por que vivemos assim.

Escândalos

Enquanto Dario expunha seus questionamentos, o Papa Francisco anotava, para respondê-los um a um. À pergunta sobre os fastos e os frequentes escândalos que tornam a Igreja pouco crível aos olhos dos jovens, Francisco disse:

“O escândalo de uma Igreja formal, não testemunha; o escândalo de uma Igreja fechada porque não sai. Ele – disse o Papa referindo-se a Dario – deve sair de si mesmo, quer esteja triste ou contente, mas deve sair para acariciar os doentes, para oferecer as curas paliativas que fazem com que seu trânsito para a eternidade seja menos doloroso. E ele sabe o que é sair de si mesmo, ir em direção aos outros, ir para além das fronteiras que me dão segurança.”

Clericalismo

E recorda a passagem em que Jesus diz: «Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo»:

“Eu penso muitas vezes em Jesus que bate à porta, mas de dentro, para que o deixemos sair, porque nós, muitas vezes, sem testemunho, o mantemos prisioneiro das nossas formalidades, dos nossos fechamentos, dos nossos egoísmos, do nosso modo de viver clerical”.

“ E o clericalismo, que não é só dos clérigos, é um comportamento que diz respeito a todos nós: o clericalismo é uma perversão da Igreja. ”

Jesus, pelo contrário – explica o Papa – nos ensina este caminho de saída de nós mesmos, o caminho do testemunho. E este é o escândalo – porque somos pecadores! – não sair de nós mesmos para testemunhar”.

Mas, se eu não sou capaz de sair de mim mesmo para dar testemunho, posso criticar “aquele padre, aquele bispo ou aquele cristão? (…) Posso dizer isto também a meu respeito? Eu dou testemunho?”, questiona.

“A Igreja sem testemunho – disse Francisco aos jovens – é somente fumaça”.

 

 via vaticannews.va/pt.html