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Notícias da paróquia › 27/12/2012

Natal: possível só a Deus

No Natal, os cristãos comemoram o nascimento de Jesus Cristo. Com eles, também festejam muitos seguidores de religiões diferentes e pessoas sem religião. O Natal envolve a todos, de alguma maneira.

Fiquei feliz em receber saudações de feliz Natal de pessoas que não têm a fé cristã católica. Agradeço a todos os que se unem à nossa festa. Jesus Cristo é referência central para os cristãos, mas entendemos que Ele é importante para toda a humanidade. Portanto, desejo boas festas e feliz Natal de Jesus Cristo a todos!

Não é raro levantarem-se dúvidas sobre a existência histórica de Jesus de Nazaré. Fico me perguntando qual o motivo de semelhante dúvida. Jesus seria apenas um mito criado pela fantasia de hábeis pregadores e bilhões de pobres crédulos, enganados em sua boa fé por 20 séculos?

Entendo que haja interpretações diferentes sobre o significado de Jesus Cristo para a humanidade e que não todos concordem com os artigos da fé cristã –que ele é o filho de Deus que se fez homem, que uniu na sua pessoa o homem a Deus, que é o salvador da humanidade e outras afirmações preciosas à fé dos cristãos.

Mas dá para duvidar da existência de quem desencadeou fatos tão notórios, que mobilizou multidões ao longo de sua pregação e até estremeceu o poderoso Império Romano.

São fatos bem documentados, não apenas por seus seguidores, mas também pelo mundo civil no início da era cristã. Esses fatos poderiam ter tido origem e persistência na afirmação de um mito, sem base histórica? Não parece razoável.

As narrativas dos evangelhos sobre Jesus não podem ser lidas simplesmente à luz dos critérios da historiografia moderna. São testemunhos sobre Jesus cuja finalidade é respaldar as convicções de fé sobre Jesus nesses mesmos textos. No entanto, são testemunhos com base em fatos, pessoas, lugares e situações reais. Nazaré, Belém, Jerusalém, Tiberíades existiram e existem ainda, assim como o rio Jordão, o mar Morto e o deserto de Judá.

Por que duvidar que Pedro, Tiago e João, três de seus discípulos, existiram? A partir de qual base razoável negar que Jesus tenha proferido o “discurso das bem-aventuranças”, que tenha participado de um casamento em Caná da Galileia, que se tenha confrontado com as autoridades civis e religiosas de Jerusalém e encontrado Zaqueu, um cobrador de impostos, e tenha tomado refeição em sua casa?

Os testemunhos sobre Jesus, que transmitem ensinamentos de fé, não são fruto da fantasia de seus autores.

Há reconhecidas inexatidões sobre a fixação do momento histórico em que Jesus nasceu. Há 2 mil anos, não havia o calendário observado hoje no Ocidente nem registros exatos dos dados pessoais dos cidadãos, como agora se costuma fazer.

O papa Bento 16 escreveu e publicou, recentemente, o terceiro livro de sua trilogia sobre Jesus de Nazaré, que trata, justamente, da infância de Jesus. Vale a pena ler.

O próprio papa traz nesse livro aquilo que há muito já se sabia e era aceito entre os estudiosos: que o ano do nascimento de Jesus deve ser situado uns quatro anos antes do cálculo oficial do início da era cristã. Esse cálculo foi feito bem depois do nascimento de Jesus por quem estabeleceu o calendário atual.

Os autores dos evangelhos e dos demais textos no Novo Testamento não tinham, e não se poderia exigir deles, a preocupação historiográfica moderna. Mas isso não invalida a autenticidade da base dos seus testemunhos: a pessoa histórica de Jesus.

Não é, pois, razoável colocar isso em dúvida sem fazer o mesmo com a existência dos demais fundadores das grandes religiões e dos personagens marcantes da história antiga da humanidade, para os quais não é possível encontrar a documentação que a moderna historiografia requer.

Mas é certo que, para os cristãos, a comemoração do Natal vai muito além da afirmação do nascimento e da existência histórica de Jesus. Nós o celebramos como um evento de extraordinária grandeza e significado. A liturgia católica do Natal reproduz a admiração que brota da contemplação do Natal de Jesus com os olhos da fé: “Ó, grande mistério!” (“o magnum mysterium!”).

Como pode ser que o grande Deus, o todo poderoso, o puro espírito, se torne tão pequeno, frágil, corpóreo, tão humano? A resposta é uma só: unicamente por amor!

Por amor a cada ser humano, assumido pelo Filho de Deus, que uniu na sua pessoa também nossa humana fragilidade e lhe deu uma dignidade inimaginável! O magnum mysterium! Impossível ao homem, mas não é impossível a Deus, que nos ama bem mais que possamos imaginar.

Por Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo

Publicado na coluna Tendências/Debates do jornal Folha de São Paulo