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Feliz daquela que acreditou

Feliz daquela que acreditou

Cheia de graça
18/02/2015

12. Logo depois de ter narrado a Anunciação, o Evangelista São Lucas faz-nos de guia, seguindo os passos da Virgem em direção a “uma cidade de Judá” (Lc 1, 39). Segundo os estudiosos, esta cidade devia ser a “Ain-Karim” de hoje, situada entre as montanhas, não distante de Jerusalém. Maria dirigiu-se para lá “apressadamente”, para visitar Isabel, sua parente. O motivo desta visita há-de ser procurado também no fato de Gabriel, durante a Anunciação, ter nomeado de maneira significativa Isabel, que em idade avançada tinha concebido do marido Zacarias um filho, pelo poder de Deus: “Isabel, tua parente, concebeu um filho, na sua velhice; e está já no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus” (Lc 1, 36-37). O mensageiro divino tinha feito recurso ao evento, que se realizara em Isabel, para responder à pergunta de Maria: “Como se realizará isso, pois eu não conheço homem?” (Lc 1, 34). Sim, será possível tacitamente pelo “poder do Altíssimo”, como e ainda mais do que no caso de Isabel.

Maria dirige-se, pois, impelida pela caridade, a casa da sua parente. Quando aí entrou, Isabel, ao responder à sua saudação, tendo sentido o menino estremecer de alegria no próprio seio, “cheia do Espírito Santo”, saúda por sua vez Maria em alta voz: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre” (cf. Lc 1, 40-42). Esta proclamação e aclamação de Isabel deveria vir a entrar na Ave Maria, como continuação da saudação do Anjo, tornando-se assim uma das orações mais frequentes da Igreja. Mas são ainda mais significativas as palavras de Isabel, na pergunta que se segue: “E donde me é dada a dita que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?” (Lc 1, 43). Isabel dá testemunho acerca de Maria: reconhece e proclama que diante de si está a Mãe do Senhor, a Mãe do Messias. Neste testemunho participa também o filho que Isabel traz no seio: “estremeceu de alegria o menino no meu seio” (Lc 1, 44). O menino é o futuro João Batista, que, nas margens do Jordão, indicará em Jesus o Messias.

Todas as palavras, nesta saudação de Isabel, são densas de significado; no entanto, parece ser algo de importância fundamental o que ela diz no final: “Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor” (Lc 1, 45). 28 Estas palavras podem ser postas ao lado do apelativo “cheia de graça” da saudação do Anjo. Em ambos os textos se revela um conteúdo mariológico essencial, isto é, a verdade acerca de Maria, cuja presença se tornou real no mistério de Cristo, precisamente porque ela “acreditou”. A plenitude de graça, anunciada pelo Anjo, significa o dom de Deus mesmo; a fé de Maria, proclamada por Isabel aquando da Visitação, mostra como a Virgem de Nazaré tinha correspondido a este dom.

13. “A Deus que revela é devida “a obediência da fé” (Rom 16, 26; cf. Rom 1, 5; 2 Cor 10, 5-6), pela qual o homem se entrega total e livremente a Deus”, como ensina o Concílio. 29 Exatamente esta descrição da fé teve em Maria uma atuação perfeita. O momento “decisivo” foi a Anunciação; e as palavras de Isabel – “feliz daquela que acreditou” – referem-se em primeiro lugar precisamente a esse momento. 30

Na Anunciação, de facto, Maria entregou-se a Deus completamente, manifestando “a obediência da fé” Àquele que lhe falava, mediante o seu mensageiro, prestando-lhe o “obséquio pleno da inteligência e da vontade”. 31 Ela respondeu, pois, com todo o seu “eu” humano e feminino. Nesta resposta de fé estava contida uma cooperação perfeita com a “prévia e concomitante ajuda da graça divina” e uma disponibilidade perfeita à ação do Espírito Santo, o qual “aperfeiçoa continuamente a fé mediante os seus dons”. 32

A palavra de Deus vivo, anunciada pelo Anjo a Maria, referia-se a ela própria: “Eis que conceberás e darás à luz um filho” (Lc 1, 31). Acolhendo este anúncio, Maria devia tornar-se a “Mãe do Senhor” e realizar-se-ia nela o mistério divino da Incarnação: “O Pai das misericórdias quis que a aceitação por parte da que Ele predestinara para mãe, precedesse a Incarnação”. 33 E Maria dá esse consenso, depois de ter ouvido todas as palavras do mensageiro. Diz: “Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Este fiat de Maria – “faça-se em mim” – decidiu, da parte humana, do cumprimento do mistério divino. Existe uma consonância plena com as palavras do Filho que, segundo a Carta aos Hebreus, ao vir a este mundo, diz ao Pai: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-me um corpo… Eis que venho… para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hebr 10, 5-7). O mistério da Incarnação realizou-se quando Maria pronunciou o seu “fiat”: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”, tornando possível, pelo que a ela competia no desígnio divino, a aceitação do oferecimento do seu Filho.

Maria pronunciou este “fiat” mediante a fé. Foi mediante a fé que ela “se entregou a Deus” sem reservas e “se consagrou totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra do seu Filho”. 34 E este Filho – como ensinam os Padres da Igreja – concebeu-o na mente antes de o conceber no seio: precisamente mediante a fé! 35 Com justeza, portanto, Isabel louva Maria: “Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor”. Essas coisas já se tinham cumprido: Maria de Nazaré apresenta-se no limiar da casa de Isabel e de Zacarias como mãe do Filho de Deus. É essa a descoberta letificante de Isabel: “A mãe do meu Senhor vem ter comigo!”.

14. Por conseguinte, também a fé de Maria pode ser comparada com a de Abraão, a quem o Apóstolo chama “nosso pai na fé” (cf. Rom 4, 12). Na economia salvífica da Revelação divina, a fé de Abraão constitui o início da Antiga Aliança; a fé de Maria, na Anunciação, dá início à Nova Aliança. Assim como Abraão, “esperando contra toda a esperança, acreditou que haveria de se tornar pai de muitos povos” (cf. Rom 4, 18 ), também Maria, no momento da Anunciação, depois de ter declarado a sua condição de virgem (“Como será isto, se eu não conheço homem?”), acreditou que pelo poder do Altíssimo, por obra do Espírito Santo, se tornaria a mãe do Filho de Deus segundo a revelação do Anjo: “Por isso mesmo o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35).

Entretanto, as palavras de Isabel: “Feliz daquela que acreditou” não se aplicam apenas àquele momento particular da Anunciação. Esta representa, sem dúvida, o momento culminante da fé de Maria na expectação de Cristo, mas é também o ponto de partida, no qual se inicia todo o seu “itinerário para Deus”, toda a sua caminhada de fé. E será ao longo deste caminho, que a “obediência” por ela professada à palavra da revelação divina irá ser actuada, de modo eminente e verdadeiramente heroico ou, melhor dito, com um heroísmo de fé cada vez maior. E esta “obediência da fé” da parte de Maria, durante toda a sua caminhada, terá surpreendentes analogias com a fé de Abraão. Do mesmo modo que o patriarca do Povo de Deus, também Maria, ao longo do caminho do seu fiat filial e materno, “esperando contra toda a esperança, acreditou”. Especialmente ao longo de algumas fases deste seu caminhar, a bênção concedida “àquela que acreditou” tornar-se-á manifesta com particular evidência. Acreditar quer dizer “abandonar-se” à própria verdade da palavra de Deus vivo, sabendo e reconhecendo humildemente “quanto são insondáveis os seus desígnios e imperscrutáveis as suas vias” (Rom 11, 33). Maria, que pela eterna vontade do Altíssimo veio a encontrar-se, por assim dizer, no próprio centro daquelas “imperscrutáveis vias” e daqueles “insondáveis desígnios” de Deus, conforma-se a eles na obscuridade da fé, aceitando plenamente e com o coração aberto tudo aquilo que é disposição dos desígnios divinos.

Extraído da Carta Encíclica Redemptoris Mater. 
Do Sumo Pontífice João Paulo II
Sobre A Bem-Aventurada Virgem Maria