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Artigos › 02/01/2017

Dom Paulo permanece no coração do povo

O Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns partiu deste mundo no dia 14 de dezembro. Era o Dia de São João da Cruz, santo reformador da Ordem do Carmelo, junto com Santa Teresa d’Ávila. Tinha completado 95 anos de idade no dia 14 de setembro passado, quando a Igreja comemorava outra festa relacionada com a cruz de Cristo: a “Exaltação da Santa Cruz”. Do nascimento à morte, foi marcado pela cruz de Cristo, sinal de esperança e de vida para os cristãos.

Dom Paulo abraçou e aliviou a cruz dos irmãos durante todo o tempo de seu serviço sacerdotal e episcopal, fazendo-os experimentarem a esperança. Segurando firme a sua cruz peitoral de bispo, já no seu leito de morte, ele mostrou que também para ele próprio o Cristo crucificado era seguro sinal de esperança e vida. Na cruz, Cristo amou até o fim e deu a prova extrema do seu amor por nós.

O “Cardeal da esperança” viveu 95 anos bem vividos; 76 deles como religioso franciscano, 71 anos como sacerdote de Cristo, 50 anos como bispo da Igreja, dos quais 43 como cardeal. Uma vida inteira dedicada a Deus e aos irmãos! Desde 1998, era arcebispo emérito. No dia 2 de julho de 2016, comemorou seu jubileu de ouro episcopal na Catedral da Sé. Estava feliz, acarinhado pelo povo, cercado de antigos colaboradores, de sacerdotes e bispos. Almoçou no Convento São Francisco junto com suas três famílias: os parentes de sangue, seus confrades franciscanos e a grande família arquidiocesana de São Paulo, que ele serviu como bispo auxiliar e arcebispo por bem 32 anos!

Dom Paulo também quis celebrar na Sé pelos seus 71 anos de sacerdócio, no dia 27 de novembro passado. Conforme era seu costume, fez breve saudação ao povo e exortou à firmeza na fé. Também dirigiu palavras de estima e afeto pelos sacerdotes, recordando a todos o dever de rezar pelas vocações sacerdotais e religiosas. Nesse dia, ele parecia mais abatido que em outras ocasiões. No dia seguinte, de fato, foi internado no Hospital Santa Catarina, com complicações bronco-pulmonares.

Encontrei muitas vezes o Cardeal, quer em sua pequena habitação junto do convento das Irmãs Franciscanas da Ação pastoral, em Taboão da Serra (SP), quer durante as internações, sempre mais frequentes, para tratar de problemas de saúde. Várias vezes, ele também aceitou vir, para momentos de convívio fraterno, à minha residência, que também já foi a sua, enquanto arcebispo de São Paulo. Ele também quis estar na comemoração do meu aniversário, em setembro passado.

A missa na Sé, em 27 de novembro passado, foi a sua última celebração eucarística; e o almoço que fizemos juntos, em seguida, foi sua última refeição à mesa, em convívio fraterno, antes de sua derradeira internação no hospital. Conversamos e até cantamos alguma canção em alemão, que ele entoou com firmeza e gostava muito… Estava feliz e quis ver algumas plantas e árvores no quintal. Tinha sentimentos franciscanos… Quem podia imaginar que aquela seria a sua despedida?! A partir da sua internação, fiz-lhe visitas quase diárias, que se foram intensificando à medida que seu quadro se agravava.

Após o seu falecimento, o “Cardeal da esperança” recebeu enormes demonstrações de reconhecimento e afeto daqueles que foram seus colaboradores e de muitas pessoas do povo, e é justo que tenha sido assim. Reconhecer os dons e méritos das pessoas é dar glórias a Deus, Senhor da vida e distribuidor de todos os dons. Fico feliz por ter acompanhado de perto os últimos anos da vida de Dom Paulo. O padre e o bispo não têm família e descendentes de sangue. Sua família é a Igreja, seus irmãos e “filhos” são os filhos da Igreja, a quem eles servem. Eles também devem cuidar dos seus ministros, com todo o carinho e atenção. Lembro uma fala recente do Papa Francisco, em que ele pedia para amar sinceramente as pessoas ao nosso redor, enquanto vivem, para não lhes levar flores e dirigir palavras vazias e formais apenas depois que falecem…

Respondi a muitas perguntas de repórteres durante os dias do funeral e uma era infalível: qual foi a importância de Dom Paulo para a Igreja e para a sociedade? O mesmo, talvez, também perguntam pessoas jovens, abaixo de 35 anos, que tiveram pouco ou nenhum contato direto com o Cardeal Arns, mas foram motivadas a conhecê-lo um pouco mais. Dom Paulo tem lugar seguro no coração do povo e sua figura de arcebispo, cardeal e pastor dinâmico da Igreja em São Paulo, de representante e voz corajosa da Igreja, que cumpriu o seu papel público de maneira marcante numa época difícil na história do Brasil, fica entregue às interpretações da história.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo