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Artigos › 27/01/2017

Deus já mentiu para você?

Deus já mentiu para você?” Como você responderia a essa pergunta? Ela foi feita  por uma criança que se sentia decepcionada a seu pai, que eu conheço bem. Desde então, eu tenho lutado com esse questionamento.

Meu treinamento filosófico poderia oferecer argumentos, explicando por que Deus não mente. Isso é pertinente e verdadeiro, mas não era o que a criança precisava naquele momento. Ela está lutando com uma decepção esmagadora, vendo que o que ela está esperando e o que tem definido no seu coração ainda não chegaram – e tudo indica que não vão chegar. As verdades da Filosofia poderiam trazer-lhe a clareza mais tarde, mas ela, agora, não seria capaz de vê-las através de suas lágrimas.

O pai poderia ter sucumbido à tentação de frustrar o ponto afiado da pergunta com a seguinte resposta: “Tudo vai ficar bem! Afinal, a Bíblia diz: “Nada é impossível para Deus”. Verdade – nada é impossível com Deus – mas essa afirmação não a ajudaria se fosse oferecida apenas para silenciá-la. Este é o problema dos chavões: eles podem ser um desserviço para as verdades, porque eles podem ser usados para sufocar as vozes e as dores daqueles que fazem perguntas desconfortáveis e indesejáveis. O pai não recorreu aos clichês porque tem muito respeito pela inteligência da filha e pela majestade de Deus.

E ainda estamos diante de sua situação difícil: “Eu procurei a vontade de Deus e agi de acordo. Esperei para receber o que Deus me prometeu. E nada aconteceu. Pior do que isso é o fato de a janela de oportunidades para eu receber o que me foi prometido por Deus estar começando a se fechar. Deus mentiu para mim? ”

Aqui, podemos ver as limitações da consolação da Filosofia e as verdades dos chavões piedosos. Nenhum deles leva uma pessoa confusa e de coração partido à cruz de Cristo. É para aquele lugar terrível, onde o mal tentou esmagar e apagar amor fiel, que os feridos devem ir. É lá que devemos contemplar o custo da confiança absoluta na bondade de Deus. E é só a partir daí que podemos encontrar o poder do Cristo ressuscitado.

Ao pé da cruz, vamos ecoar as palavras do sofredor Jó: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13:15). Jó não se contentará com respostas medíocres ou banalidades. Ele procura uma audiência com Deus. Devemos fazer o mesmo – mas devemos saber – de uma maneira que Jó não compreendia – que confrontar Deus significa confrontar Cristo crucificado e ressuscitado. Nós vamos ao Servo Sofredor de Deus, que se rendeu de tudo, foi saqueado pelo mal, e foi, depois de um tempo de escuridão, chamado por Deus. Devemos entender que, se nos desviarmos de Cristo, não devemos esperar “sopa de frango para a alma”. Não! Virar-se para Cristo em nossa dor é pisar em um caminho obscuro de sangue e glória.

Podemos começar nosso abraço de Cristo crucificado e ressuscitado ecoando Jó: “Sei que podes tudo, que nada te é muito difícil”(Jó 42: 2). O último propósito de Deus é unir-nos a Ele por toda a eternidade. Nossas dores e alegrias temporárias nesta vida devem ser medidas à luz da eterna glória que Deus nos oferece.

Nós somos peregrinos terrestres no caminho para o Céu; inevitavelmente sofremos, e, finalmente, morremos. Alguns de nós podem ser martirizados. Alguns podem morrer enquanto olham para trás e enxergam uma vida agradável – a maioria de nós não. Ao longo do caminho, nenhum de nós tem a sabedoria para entender plenamente como a graça e providência de Deus trabalham com o livre-arbítrio humano, o desapontamento e a sorte silenciosa.

Contudo, temos a Igreja nos ensinando que, se nossa esperança em Deus repousa sobre o que podemos captar neste mundo que passa, estaremos decepcionados. Nossa esperança em Deus só pode descansar sobre a obediência de Cristo crucificado e sobre a fidelidade de Nosso Pai Celestial que elevou Cristo à soberania e à glória.

O poeta John Keats refere-se a este mundo como “O Vale Criador de Almas”. Esse mundo finito, e passageiro, com suas alegrias e tristezas reais e temporárias, pode ser usado por Deus e pelo dócil discípulo de Cristo para preparar uma alma para a eterna União com Deus. O pesar e as decepções, embora agonizantes, não precisam ser encarados como “desperdiçados”, mas podem ser usados, redentoramente, na purificação de uma alma para a felicidade do Céu.

Então, como aquele pai poderia ter respondido à pergunta da filha? Ele poderia dizer: “Não, Deus nunca mentiu para mim. E sei que Ele é fiel e amoroso, porque o que Ele fez por Cristo, Ele quer fazer por você e por mim”.

No próximo texto, vou falar de otimismo, desejo e esperança. Até lá, vamos nos manter em oração.

Por Fr Robert McTeigue, SJ, via Aleteia EUA