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Artigos, Matéria de capa › 14/05/2018

Como se fosse verdade

Como faz todos os anos, o papa Francisco emitiu uma mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, comemorado pela Igreja Católica no domingo da ascensão de Jesus ao céu. Neste ano a solenidade transcorre no dia 13 de maio. O tema da mensagem é “Fake news e jornalismo de paz”.

Com o advento da internet e das mídias sociais, as possibilidades de comunicação ampliaram-se de maneira impressionante e dificilmente imaginável há poucas décadas. Na prática, cada pessoa pode transformar-se num comunicador, além de acessar todo tipo de comunicação. Isso trouxe o benefício da universalização da informação e da democratização dos meios de comunicação, embora os grandes meios e grupos de comunicação não tenham perdido a sua relevância para a informação adequada e a formação da opinião pública.

A comunicação é uma necessidade humana. Por meio dela o ser humano é capaz de expressar o que é verdadeiro, bom e belo e de compartilhar com os outros a sua experiência e a percepção dos acontecimentos e do mundo que o cerca. Infelizmente, porém, a capacidade de comunicação pode ser usada de maneira inadequada, para distorcer, falsear ou esconder a verdade, com intenções pouco transparentes ou nada honestas. Pode acontecer nas relações pessoais, sociais e públicas.

O papa Francisco, na sua mensagem, aborda o fenômeno das fake news, ou comunicações e notícias falsas. Intencionalmente falsas. Elas são uma realidade nada indiferente no mundo da comunicação e não se trata apenas de “mentirinhas inocentes”. Notícias propositadamente produzidas como falsas podem prejudicar pessoas e entidades, confundir a opinião pública e esconder propósitos desonestos para conseguir benefícios de todo tipo. Só a título de exemplo: discute-se ainda se as últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos foram ou não influenciadas de maneira determinante por fake news. E as autoridades eleitorais brasileiras já se preocupam com a difusão de notícias falsas durante a campanha eleitoral deste ano. Elas podem ter grande peso na definição do voto dos eleitores.

As fake news, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, podem vir travestidas com aparência de verdade. “Falsas, mas verossímeis”, observa o papa Francisco em sua mensagem. Elas tendem a manipular a informação e seu destinatário. Conseguem capturar a atenção apoiando-se em estereótipos, preconceitos generalizados, ou presentes em certos grupos sociais, explorando emoções fáceis, suscitando ansiedade, desprezo, ira ou frustração. O uso manipulador da comunicação é favorecido ainda mais pela difusão exponencial do uso da internet e das redes sociais. A divulgação massiva de fakes com objetivos prefixados pode influenciar a política na busca de vantagens pouco ou nada transparentes.

Essa maneira de promover a comunicação social é desonesta e pode produzir grandes males. Não deixa de ser uma grave forma de corrupção, a ser decididamente combatida. Além de envolver responsabilidades perante a lei e a ordem pública, o uso manipulado e falso da informação também tem consequências morais sérias. As relações sociais e públicas de respeito, justiça, paz e solidariedade só podem ser tecidas sobre a base da verdade. Aquilo que se edifica sobre a mentira, o engano e a manipulação da informação tem bases frágeis e não resiste por muito tempo. “A verdade vos tornará livres”, ensinou Jesus (Jo 8,32).

Reconhecer e evitar a difusão de fake news deve ser uma preocupação constante de todos; para tanto é necessário checar criteriosamente as fontes das informações e discernir sobre as consequências, o bem ou o dano que podem advir da difusão da informação falsa. O sadio exercício da dúvida metódica e uma boa dose de senso crítico são atitudes indispensáveis diante do volume de informações que circulam na rede por todas as mídias sociais. Sempre vai bem perguntar se uma informação tem fundamento ou se aquilo que aparece na telinha não esconde segundas intenções, ou algum veneno, que é melhor bloquear, em vez de espalhar. É prudente segurar a vontade de difundir logo algo que parece um scoop de notícia, ou as afirmações voltadas para alimentar conflitos, demonizar e jogar no descrédito pessoas ou instituições. Melhor não aderir logo ao coro dos que promovem apressadamente a acusação, o julgamento, a condenação e o linchamento de pessoas e instituições pelas mídias. Quem será capaz de reparar a dor e o dano causados a vítimas inocentes pelos tribunais implacáveis das fake news?

A educação é necessária para o uso criterioso dos meios de comunicação, muito especialmente das mídias sociais. Essa educação, orientada por sólido amor à verdade e à justiça, deve ter início já na infância; crianças e adolescentes podem ser vítimas do uso manipulado da comunicação, mas também já podem desenvolver tendências a usar as mídias de forma incorreta e prejudicial a si e contra o próximo. O amor à verdade deve ser parte da disciplina pessoal de um caráter honesto. As concessões à dissimulação e à mentira geralmente são sinais de corrupção da consciência, que pode levar indivíduos a ações e fatos de corrupção sempre maiores.

Já no final de sua mensagem, Francisco dirige-se aos jornalistas, “guardiões da notícia”; pela sua profissão, eles têm a obrigação de ser responsáveis ao informar. Sua profissão é uma missão, voltada para as pessoas mais do que para a notícia em si. “Informar também é formar, é lidar com a vida das pessoas.” O papa convida os profissionais da imprensa e da comunicação a promoverem um jornalismo de paz, sem falsidades nem slogans sensacionalistas e declarações bombásticas; um jornalismo feito por pessoas para pessoas, como serviço prestado a todas as pessoas, especialmente àquelas que não têm voz – e no mundo são tantas!

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo

Artigo publicado no jornal “O Estadao de S.Paulo”, ed. 12/5/2018