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Artigos, Editorial › 23/11/2017

Ano Nacional do Laicato

No Domingo de Cristo Rei, comemora-se o Dia dos Leigos e Leigas no Brasil. Todos os batizados são, por graça divina, discípulos-missionários de Jesus Cristo, Rei e Salvador, e enviados ao mundo como suas testemunhas. Os cristãos leigos, de maneira especial, são a presença do fermento novo e do sal de Reino de Deus, que preserva e confere o sabor das coisas de Deus às realidades deste mundo.

O título de Cristo Rei não se refere a alguma pretensão de poder terreno de Jesus Cristo. Não ambiciona reinos neste mundo quem é o Senhor do céu e da terra… O título expressa a nossa compreensão da soberania de Jesus Cristo sobre todos os tronos e todos os poderes e nos faz compreender que o Evangelho é a lei maior, que deve inspirar e orientar toda legislação humana e também todo projeto de governo terreno.

Abre-se o Ano do Laicato em todo o Brasil. Durante este ano, leigos e leigas são convidados a refletir e valorizar sua vocação laical, sua participação na vida e missão da Igreja e sua presença cristã na sociedade. Os leigos são os “apóstolos de Cristo” nas múltiplas realidades deste mundo e têm a missão de levar a todo lugar o fermento, o sal e a luz do Evangelho. Essa missão é grande e desafiadora!

O lugar da atuação e testemunho dos leigos e leigas é duplo: de um lado, sua participação é indispensável na vida e missão interna da própria comunidade eclesial. Cada batizado participa, de maneira própria ao seu estado, da missão evangelizadora através do testemunho da fé, da catequese e anúncio do Palavra de Deus e de muitas outras formas. Participa igualmente da missão pastoral, animando muitas iniciativas voltadas para o bem pastoral; e participa, de maneira solidária, da promoção da caridade e da provisão dos meios necessários à missão evangelizadora das comunidades.

Entretanto, a grande missão dos leigos não acontece no interior da comunidade eclesial, mas no vasto mundo das realidades sociais, culturais, políticas e das responsabilidades sociais, em que a Igreja não age de maneira institucional, mas através dos leigos. Ali, eles são os apóstolos do Evangelho e levam, com a força do Espírito Santo, a luz, o sal e o fermento da Boa Nova para os diversos ambientes e circunstâncias das “realidades terrestres”. A eclesiologia do Concílio Vaticano II expõe a teologia básica do laicato em dois de seus Documentos: Lumen Gentium, sobre a Igreja (cap. IV), e Apostolicam Actuositatem, sobre a ação apostólica dos Leigos. Em diversos outros Documentos posteriores, o Magistério pontifício explicitou e ampliou o pensamento oficial da Igreja a respeito dos leigos e leigas na vida e na missão da Igreja, de maneira especial, na Exortação Pós-sinodal do Papa São João Paulo II – Christifideles Laici (1988).

O Ano Nacional do Laicato deveria ser uma boa ocasião para a maior valorização dos leigos e leigas na Igreja, conforme a teologia do Concílio Vaticano II. Ainda se faz necessário ir além de certa ideia, segundo a qual a Igreja seria uma organização do clero, sendo os leigos apenas beneficiários do serviço ou do poder do clero. Não está correto dividir a Igreja entre uma parte ativa e outra, passiva. Nem se pode cair na tentação de fazer uma eclesiologia sindical, classista ou corporativista. A Igreja é feita de batizados, de igual dignidade enquanto filhos de Deus, agraciados pela misericórdia de Deus e pela graça da Redenção, participantes do mesmo patrimônio da fé e esperança, herdeiros das mesmas promessas de Deus. Há sim, na Igreja, serviços e missões diversas, segundo os dons que Deus distribui para a vida da mesma Igreja e para o exercício da sua missão.

O Reino de Deus é dom e graça de Deus e nós o acolhemos, tornando-nos seus servidores e testemunhas. E toda a comunidade dos batizados é chamada a dar esse testemunho perante o mundo: é um reino de vida e verdade, reino de santidade, justiça, amor e paz. O Brasil tem grande necessidade desse testemunho, através da ação dos leigos e leigas em todos os ambientes, no exercício das competências e responsabilidades privadas, sociais e públicas.

Os cristãos do Brasil, somando católicos e irmãos de outras igrejas, são cerca de 90% da população. Isso deveria fazer alguma diferença no jeito de ser da sociedade e da cultura do nosso País, que deveria se apresentar digna de Deus e da família de Deus! Ser bons cristãos também significa ser cidadãos dignos da Pátria terrena, para se ter parte no Reino eterno de Cristo e de Deus.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em “O SÃO PAULO“, na edição de 23/11/2017