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Matéria de capa › 10/09/2018

A religiosidade verdadeira

Observo que a discussão sobre a religião “verdadeira” está, atualmente, relegada a um plano bem secundário. Nessa matéria, tudo acaba sendo tratado pelo “politicamente correto”, em que se evita questionar se determinadas atitudes ou práticas valem como expressão de religiosidade autêntica ou não. Não me refiro aqui à religião dos outros, mas à nossa própria, como cristãos e católicos. Todas atitudes aparentemente religiosas são manifestações de verdadeira religião?

Os textos bíblicos lidos no domingo, 2 de setembro, nos trazem a oportunidade para essa reflexão. Questionado por escribas e fariseus por qual motivo os discípulos não lavavam as mãos antes de comer e não observavam essa e outras tradições rituais dos antigos, Jesus chama seus interlocutores de hipócritas, ou seja, falsos e fingidos. E lhes lembra a palavra de Isaías: “esse povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Mãos, copos e pratos por lavar não tornam o homem indigno de se aproximar de Deus. A finalidade da religião é esta: ajudá-lo a se aproximar de Deus e a ser menos indigno de estar com Ele. Portanto, não deve a “pureza ritual” e exterior ser a grande preocupação dos ritos e práticas religiosas.

Em seguida, Jesus ensina que a principal preocupação de quem pratica a religião deve estar voltada para a purificação do “coração”. Entenda-se o “coração” de forma simbólica, como sede da consciência, das intenções, dos desejos, da vontade, dos afetos. Jesus diz que é ali que devemos olhar, pois, apesar da aparência exterior ritualmente perfeita, o coração poderia estar cheio de “más intenções, imoralidades, roubos, violência, luxúria, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho” e mais outras coisas. Todas essas coisas más tornam impuro o homem (cf. Mc 7,21-22).

Há formas desviadas de religiosidade, que tendem, por exemplo, a apropriar-se de Deus e dos seus poderes para usá-los de forma mágica segundo intenções humanas e pessoais, até mesmo para a dominação e o lucro. Pior ainda seria a pretensão de tomar o lugar de Deus… O salmo cantado na Liturgia do Domingo trazia a mesma preocupação sobre a religiosidade verdadeira: quem pode aproximar-se de Deus? Quem pode estar em sua casa e em sua presença, para contemplar a sua glória, gozar dos seus favores e participar da sua felicidade? De fato, esse é o desejo que anima a busca religiosa verdadeira.

E a resposta vai na linha do ensinamento de Jesus: “aquele que caminha sem pecado pratica a justiça fielmente, orienta sua vida pela verdade e não pela falsidade, não usa a língua para caluniar e insultar o próximo, nem prejudica seu irmão; aquele que não é ganancioso e avarento, nem se deixa subornar para testemunhar falsamente contra o inocente” (cf. Sl 14/15). Também aqui está dito que é preciso purificar o coração de toda forma de corrupção para se aproximar de Deus de forma menos indigna. E é também dessa maneira que podemos compreender a bem-aventurança de Jesus: “felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). O coração é puro quando está “limpo” de toda forma de corrupção e má intenção.

Na liturgia do mesmo domingo, o tema da prática religiosa autêntica aparece ainda na recomendação de Moisés ao povo eleito para estar atento ao que Deus diz e observar seus mandamentos, sem modificá- -los ao seu bel-prazer (cf. Dt 4,18). O homem é facilmente tentado em encontrar desculpas para não observar os mandamentos, modificando-os em favor próprio e fazendo-se, ele mesmo, o supremo legislador, “acima do bem e do mal”. A soberba do homem em relação a Deus faz parte das atitudes mais fortemente contrárias à verdadeira religião. Em vez disso, uma das dimensões mais autênticas da religiosidade é obedecer a Deus, cumprindo seus mandamentos; é “ouvir Deus”, buscando compreender seus desígnios para acolhê-los com humildade na própria vida.

Finalmente, na Carta de São Tiago, o tema aparece de forma enfática: a verdadeira religião requer acolher a palavra de Deus, não sendo apenas ouvintes, mas praticantes dessa Palavra. Não basta conhecer a vontade de Deus: é preciso conformar a vida à vontade divina manifestada na palavra e nos mandamentos de Deus. A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é “assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (cf. Tg 1,17-27). Não há religião cristã autêntica sem a prática do mandamento do amor a Deus e ao próximo, sem a prática intensa da caridade, das obras de misericórdia e sem a atenção e a proximidade a todo aquele que sofre.