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Matéria de capa › 22/10/2018

A Igreja na cidade grande

De 8 a 11 de outubro passado, realizou-se em Guadalajara (México) o 1º Congresso Continental sobre a Pastoral nas Metrópoles, promovido pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) em parceria com a arquidiocese de Guadalajara. Os mais de 500 participantes provinham de quase todos os países da América, do Canadá a Argentina; a maioria, porém, era do próprio México, especialmente da arquidiocese anfitriã do Congresso.

O fenômeno das metrópoles muito populosas pode ser observado no mundo inteiro e está em franco aumento. É a primeira vez na história da humanidade que temos essas grandes concentrações urbanas e, por isso, as metrópoles são objeto de diversos tipos de estudos e análises. Como não poderia deixar de ser, elas também interessam à vida e à missão da Igreja. As enormes mudanças econômicas, sociais, políticas, ambientais, culturais e antropológicas que nelas se operam incidem também de maneira impactante na dimensão religiosa e moral do homem e da sociedade. O desafio para a Igreja é a realização de sua missão evangelizadora nesse contexto em constante mudança.

O tema do Congresso – “a alegria do Evangelho para as grandes cidades” – foi abordado a partir de diversos enfoques e metodologias, como conferências, mesas- -redondas, partilha de experiências e testemunhos sobre novas metodologias de evangelização já em curso em diversas metrópoles. Foram feitas numerosas referências ao Documento de Aparecida e à Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco. Esses documentos já abordam a questão da evangelização nas grandes cidades e oferecem indicações preciosas a serem levadas em conta.

Foi generalizada a constatação de que as metrópoles desafiam a Igreja a buscar novos caminhos de evangelização, que sejam adequados a essa realidade complexa e urgente. Sem medo de errar, podemos afirmar que o futuro da Igreja dependerá em boa parte do modo como ela se relaciona com as cidades, especialmente as grandes metrópoles. Muitos são os desafios a serem enfrentados, como o diálogo com a cidade, onde a Igreja não é a única voz a falar e a se propor e onde ela precisa encontrar espaços para o contato com as pessoas e para ser ouvida.

Outro desafio para a Igreja é manter sua identidade e a fidelidade a si mesma num contexto religioso plural e, por vezes, também fechado e até avesso ao Cristianismo e à religião. Desafio imenso para a Igreja é sua própria “conversão pastoral”, para ser sempre mais uma Igreja missionária, “em saída”, conforme palavras do Papa Francisco. No contexto da metrópole, a própria Igreja precisa assumir um jeito urbano de ser, de se propor e de fazer pastoral.

Ela precisa passar decididamente da ideia de uma Igreja pronta e estabelecida para uma Igreja que assume a sua condição peregrinante, que se lança para o meio do povo, ao encontro das situações em constante mudança, para fazer-se próxima e solidária das pessoas que sofrem e, muitas vezes, são excluídas, descartadas e esmagadas pela metrópole. A credibilidade do anúncio da Igreja estará sempre mais relacionada com a sua capacidade de ser samaritana e coerente com o Evangelho que ela prega.

A Igreja precisa voltar-se para a grande cidade com um olhar novo, iluminado pela fé e pelo desígnio de Deus sobre as pessoas que vivem na metrópole. Talvez a metrópole nos lembre mais “Babilônia” do que a Jerusalém celeste e assim também nossa atitude acaba sendo mais uma atitude julgadora eaté condenatória do que de anunciadores da Boa Nova da esperança e da salvação. Precisamos voltar-nos para as grandes cidades com um olhar contemplativo e místico, percebendo nelas a presença de Deus e sua manifestação, mesmo nos lugares e situações mais surpreendentes. Jesus contemplou Jerusalém, teve pena dela e chorou sobre ela, pois lhe queria bem e queria levar a paz e a salvação.

Precisamos passar do olhar de Jonas sobre Nínive, que era de desdém e rejeição, para o olhar próprio de Jesus, que era de compaixão e misericórdia pelas pessoas que habitam cada canto da cidade e que Deus ama e quer salvar.

Na realização do nosso sínodo arquidiocesano, temos uma oportunidade boa para nos darmos conta da situação de nossa Igreja na metrópole paulistana. Há muitos desafios a enfrentar, mas também grandes oportunidades a aproveitar, que requerem de nós uma especial atenção para as práticas e os métodos pastorais mais adequados.